Volta: A 82.ª edição merecia um final mais feliz

A 'tragédia' de Mauricio Moreira ensombreceu o triunfo de Amaro Antunes (W52-FC Porto), hoje coroado bicampeão da Volta a Portugal em bicicleta graças a uma demonstração de resiliência no contrarrelógio ganho pelo imparável Rafael Reis.

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A 82.ª edição merecia um final feliz, mas Viseu assistiu a uma das cenas mais desoladoras em décadas na prova: entre a audiência, muitos foram aqueles que ficaram com os olhos marejados ao ver Mauricio Moreira (Efapel), destroçado, irromper num choro convulsivo quando percebeu que, apesar de ter ignorado as evidentes lesões, tinha acabado de perder a Volta a Portugal por meros 10 segundos.

Aquela queda entre o primeiro – onde passou com o melhor tempo – e o segundo ponto intermédio ficará para sempre na memória do uruguaio da Efapel e na história da Volta a Portugal: não fosse esse azar, e os 40 segundos perdidos na Torre, devido a um duplo abastecimento irregular, seria ‘Mauri’ o homem mais forte desta edição, a vestir a amarela no pódio em Viseu.

O infelicidade de Moreira ofuscou o novo momento de glória de Amaro Antunes, ainda assim um justo bicampeão da Volta, depois de ter feito o contrarrelógio da sua vida em mais uma demonstração de garra e querer, sendo mesmo quarto classificado a 44 segundos do novamente vencedor Rafael Reis (e foram quatro as etapas que conquistou).

Primeiro grande candidato ao triunfo na 10.ª e última etapa, Juri Hollman (Movistar), que acabou por ser terceiro, a 41 segundos, esperou e esperou até à chegada do ‘voador Reis’, que ultrapassou dois ciclistas e pulverizou o registo do alemão da Movistar, cumprindo os 20,3 quilómetros nas ruas de Viseu com um extraordinário tempo de 25.34 minutos, alcançados a uma média de 47,953 km/h.

Sentado na relva de uma rotunda, ‘Rafa’ trocou os sapatos e demorou até ocupar o seu lugar na ‘cadeira quente’, de onde seguiu atentamente a prova do seu companheiro uruguaio, para quem tinha estabelecido referências de tempo nos pontos intermédios.

E a estratégia da Efapel até estava a resultar, com Moreira a fazer melhor do que o vencedor da classificações por pontos no primeiro ponto cronometrado e a roubar rapidamente segundos ao camisola amarela, mas uma curva traiçoeira entre o quilómetro sete e o oito – Antunes haveria de confessar que, no reconhecimento do percurso, a ‘testou’ “algumas 10 vezes” – acabou com o sonho do ciclista da 26 anos.

A roda da frente resvalou, o uruguaio ainda tentou corrigir a trajetória, como explicou depois aos jornalistas, mas acabou por sair da estrada e ‘aterrar’ na vegetação. Com o ‘tirano’ cronómetro a contar, levantou-se rapidamente, sacudiu o pó e voltou à estrada, conseguindo o segundo melhor tempo, a 12 segundos de Reis.

Ao cruzar a meta, visivelmente combalido, ‘Mauri’ foi imediatamente assistido pelos médicos da prova, antes de, amparado por um membro do ‘staff’ da Efapel, assistir à consagração do algarvio da W52-FC Porto, que cortou a meta de braço no ar, antes de ser abraçado pelos seus companheiros.

A impactante dor de Moreira enquanto era levado para a ambulância contrastou com a felicidade de Antunes, ainda mais evidente quando encontrou Samuel Caldeira: ao ver o seu grande amigo (e padrinho de casamento), o trepador de Vila Nova de Cacela saltou-lhe para o colo e festejou efusivamente, antes de ‘atirar’ um ‘eu disse-lhe’ ao patrão da equipa, Adriano Quintanilha.

Hoje, Antunes voltou a ser Antunes ao libertar-se do pesado ‘fardo’ que carregou nos últimos dias, transfigurando-se para voltar a ser a estrela que nasceu para ser: “É incrível. É quase como um peso a sair de cima. Tínhamos uma pressão incrível […]. Internamente, sabíamos que era possível. Inclusive, quando toda a gente dizia que neste contrarrelógio eu ia perder a Volta, sempre acreditei”.

Quem também acreditou até ao fim foi Alejandro Marque (Atum General-Tavira-Maria Nova Hotel), a grande surpresa desta Volta, que, no seu terreno, foi quinto classificado, a 49 segundos do vencedor, e ‘galgou’ duas posições para voltar a pisar o pódio da prova rainha do ciclismo nacional, na mesma Viseu que, em 2013, o coroou vencedor.

O galego de 39 anos ultrapassou Joni Brandão (W52-FC Porto), que manteve o quarto lugar, e Frederico Figueiredo (Efapel), que desceu ao quinto, e terminou a 1.23 minutos de Antunes.

A Efapel, vencedora de seis etapas, a vitória por equipas e a camisola verde de Rafael Reis serão uma insuficiente consolação perante a derrota no nem sempre bonito, mas sempre polémico duelo com a W52-FC Porto, a estrutura que venceu a geral individual da Volta a Portugal nas últimas nove edições.
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