Menos de 100 pessoas pediram compensações financeiras à igreja católica por abusos sexuais. Ainda assim, várias vítimas foram excluídas. Apesar de o seu testemunho ser validado pelos peritos, sentenças dos tribunais da igreja ditaram a absolvição ou o arquivamento dos processos contra os padres.
"Diogo" é uma das vozes que denuncia a revitimização e violência institucional. Bateu a muitas portas, mas teve sobretudo o silêncio como resposta. Foi abusado aos onze anos no seminário de Vila Real. O padre denunciado está ainda no ativo e é defendido pelo bispo.
Para quem enfrentou o trauma é uma dupla derrota. No processo de compensação não é só o dinheiro que importa às vítimas; é sobretudo o reconhecimento que falam verdade e que há consequências práticas.
A Conferência Episcopal Portuguesa diz que a forma como lidou com os abusos sexuais deve ser vista como um exemplo para outros setores da sociedade. Mas muitas vozes críticas se levantam: se a criação da comissão independente em 2022 criou expectativas, muitos dizem que a partir daí a opacidade e a proteção da instituição falou bem mais alto do que o acolhimento dos sobreviventes.
Desde que estes sobreviventes partilharam as suas dores passaram três anos. Anos de autêntico calvário, a somar aos outros que já passaram. Porque os impactos dos abusos sexuais não ficam na infância.
"O Calvário" é uma reportagem da jornalista Ana Luísa Rodrigues, com imagem de Diogo Martins e Soraia Maia, edição de Pedro Pessoa, grafismo de Luís Cortesão, coordenação de Adília Godinho e produção de Natacha Silva Frey.