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Rota Urbana | Terceira|14 jul. 2026
A ilha Terceira é conhecida pela riqueza do seu património cultural, histórico e arquitetónico. Mas é também uma ilha que se distingue pela grande variedade de rochas vulcânicas que apresenta - é a ilha onde encontramos mais tipos de rochas diferentes (basaltos, ignimbritos, traquitos, pedra-pomes, tufo, etc.).
No seguimento da apresentação das nossas GEORotas Urbanas, o caso da ilha Terceira é muito interessante, pois as suas duas cidades (Praia da Vitória e Angra do Heroísmo) apresentam características muito distintas e particulares na relação entre a geodiversidade e o património edificado.
Uma parte importante da identidade de Angra e da Praia está precisamente nas rochas que deram forma aos fortes, conventos, palacetes, solares e praças.
Os diferentes vulcões que edificaram a ilha forneceram materiais distintos que, ao longo de séculos, foram utilizados pela população na construção.
É por isso que, ao percorrer a ilha, encontramos verdadeiras paisagens arquitetónicas moldadas pela geodiversidade.
Na cidade de Angra do Heroísmo, património mundial da UNESCO, destaca-se sobretudo a utilização dos traquitos, rochas vulcânicas claras associadas maioritariamente ao vulcão de Guilherme Moniz. Estas rochas foram amplamente utilizadas em alguns dos mais emblemáticos edifícios da cidade, como a Sé Catedral, os Paços do Concelho, o Convento de São Gonçalo ou a Igreja da Boa Nova.
Também os tufos do Monte Brasil tiveram um papel importante, sobretudo na arquitetura militar. A Fortaleza de São João Baptista e o Forte de São Sebastião são excelentes exemplos da utilização destas rochas, resultantes da atividade vulcânica que originou o Monte Brasil.
Mas, se viajarmos para leste da ilha, encontramos uma realidade completamente diferente.
Na Praia da Vitória e em toda a zona do Ramo Grande, a rocha que predomina no património edificado é o ignimbrito. Esta rocha resultou da atividade vulcânica muito explosiva do Pico Alto, que deu origem a escoadas piroclásticas - autênticas avalanches de poeiras, gases e materiais incandescentes. Durante séculos, os ignimbritos das Lajes foram explorados em diferentes pontos de extração e utilizados como pedra de cantaria.
As Muralhas da Praia, o Forte de Santa Catarina, o Mercado Municipal, o Jardim José Silvestre Ribeiro, o Convento da Luz e muitos outros edifícios da Praia da Vitória exibem esta rocha característica, facilmente reconhecível pela sua cor e textura. Os ignimbritos tornaram-se, assim, uma das principais marcas da chamada arquitetura do Ramo Grande.
Esta identidade arquitetónica foi também reconhecida por Vitorino Nemésio, filho da Praia da Vitória:
'É difícil achar na Península Ibérica, e mesmo em França, um tipo de habitat rural tão nobremente urbano como a sub-região da ilha Terceira chamada o Ramo Grande.'
As GEORotas Urbanas permitem-nos conhecer melhor os aspetos históricos, arquitetónicos e culturais das nossas vilas e cidades. Levam-nos a descobrir episódios marcantes da história açoriana, desde a importância geoestratégica de Angra do Heroísmo nas rotas atlânticas e na Carreira das Índias, até à prosperidade agrícola do Ramo Grande, associada à sua vasta planície cerealífera e ao comércio de produtos como o pastel, uma das mais importantes plantas tintureiras exportadas pelos Açores durante os primeiros séculos do povoamento.
Mas estas acrescentam uma dimensão adicional à leitura do património: ajudam-nos a compreender a ligação física entre as comunidades e o território onde se desenvolveram.
Porque, na Terceira, os traquitos de Angra e os ignimbritos do Ramo Grande continuam a contar uma história onde património, cultura e geologia caminham lado a lado.