Israel marca passo na anexação da Cisjordânia

por Graça Andrade Ramos - RTP
Um sinal de trânsito fotografo com o colonato israelita Maale Adumim, na Cisjordânia, em pano de fundo a 15 de Junho de 2020. Ammar Awad - Reuters

O início da discussão pelo executivo israelita, quanto aos detalhes da anexação da Cisjordânia, estava previsto, desde maio passado, para esta quarta-feira, 1 de julho. Entre a falta de luz verde por parte da Administração Trump e o desacordo quanto à sua implementação, entre o primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu, e o seu parceiro de coligação e ministro da Defesa, Benny Gantz, a agenda acabou por ser ignorada.

"Parece-me improvável que aconteça hoje alguma coisa", afirmou esta manhã o ministro dos Negócios Estrangeiros israelita, Gabi Ashkenazi, ele próprio um ex-chefe de Estado Maior das Forças Armadas e membro do Partido Azul e Branco de Gantz, aos microfones da Rádio do Exército de Israel.

Há precisamente um mês, as Forças Armadas israelitas receberam ordem para se prepararem para implementar os planos de anexação. 

"Acho que hoje não vai acontecer nada", referiu apenas Ashkenazi, enquanto remetia quaisquer outros comentários para o primeiro-ministro, num sinal óbvio da dissensão interna no executivo.

Ao contrário de Netanyahu, que pretende avançar rapidamente com o plano, para o concretizar antes das eleições presidenciais norte-americanas marcadas para novembro, Benny Gantz prefere esperar pelo fim da crise da pandemia de Covid-19, ou até que o vírus tenha sido contido. O líder do Partido Azul e Branco será o próximo primeiro-ministro israelita, de acordo com o plano de alternância que permitiu a formação do atual Governo após três eleições legislativas inconclusivas, uma rotação prevista para novembro de 2021.

A anexação da Cisjordânia é um dos passos essenciais do plano de paz para a região elaborado pela Administração Trump, incluindo o conselheiro e genro do Presidente norte-americano, Jared Kushner, um descendente de judeus russos que emigraram para os Estados Unidos.

O plano foi revelado em janeiro passado. Prevê a criação de um Estado Palestiniano, com  autonomia limitada nalgumas áreas designadas da Cirjordânia e a extensão da soberania israelita sobre as áreas ocupadas pelos colonatos de Israel na Cisjordânia e no Vale do rio Jordão, considerados ilegais pelas instâncias internacionais e principais potências mundiais.
Sem luz verde de Washington
Terça-feira, o próprio Benjamin Netanyahu revelou que o seu Governo iria prosseguir "nos próximos dias" as suas reuniões com os Estados Unidos quanto aos planos de anexação, dando a entender que a data do início do debate não seria cumprida.

O adiamento da discussão em sede do Governo israelita segue-se a três dias de reuniões ao mais alto nível em Washington, incluindo Jared Kushner e o secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo. Donald Trump também terá estado presente, de acordo com o testemunho de uma fonte anónima à Agência Reuters.

"Ainda não há decisão final quantos aos próximos passos para implementar o plano de Trump", afirmou a mesma fonte. Outro alto responsável referiu ser necessário "recolher mais dados", antes de uma decisão norte-americana.

Washington quer desde logo que o Governo de coligação israelita chegue a um consenso quanto ao plano e ultrapasse as próprias divisões internas. Quer ainda refrear o ímpeto expansionista de Netanyahu, que considera imprudente.

O plano do primeiro-ministro israelita e apoiado por Trump, pretende estender a soberania do país a 30 por cento dos colonatos na Cisjordânia. A questão é o tempo para o implementar.

Os americanos, com Kushner à cabeça, enquanto não afastam tal hipótese, preferem uma anexação gradual, a partir das áreas mais próximas de Jerusalém. Insistem ainda com Israel para que ofereça compensações aos palestinianos pela perda do território.
Choque de pretensões
O plano de Trump atraiu críticas de todos os lados, começando na Palestina e acabando num dos tradicionais aliados de Israel no Médio Oriente, a Jordânia, e em alguns estados árabes do Golfo que têm vindo, calmamente, a estreitar laços com Israel.

Kushner acredita que tantos os jordanos como estes últimos se iriam opor com firmeza a uma anexação imediata tão extensa como a pretendida por Netanyahu.

Os palestinianos pretendem estabelecer um Estado independente na Cirjordânia (abrangendo também a Faixa de Gaza e o Leste de Jerusalém), território capturado por Israel à Jordânia na Guerra dos Seis Dias de 1967. Rejeitaram o plano de Trump, com base no argumento de que a anexação iria inviabilizar as suas pretensões.

A maioria das potências mundiais considera ilegais os colonatos que Israel tem construído desde 1967 naquelas áreas, que considera "ocupadas". Israel defende os seus direitos com base nas suas ligações históricas e bíblicas à Cisjordânia e ao Vale do Jordão. Invoca ainda necessidade de garantir a própria segurança. Cerca de meio milhão de israelitas vive nos colonatos.

Esta quarta-feira, o secretário de Estado, Mike Pompeo, disse que a decisão sobre a anexação "cabe aos israelitas".

Entre estes a questão também não é pacífica.

Alguns grupos israelitas defensores de soluções pacíficas, têm-se manifestado na rua contra os planos de anexação.

Alguns colonos da Cisjordânia estão também insatisfeitos e sublinham que o reconhecimento de um Estado palestiniano de facto poderá deixar muitos israelitas sitiados em enclaves isolados.

A maioria dos colonos, contudo, tem pressionado Netanyahu a cumprir o prometido e lançaram mesmo uma campanha sob o lema, "Fez uma promessa. Cumpra-a".
França e Reino Unido fazem avisos
Apesar do adiamento da discussão, alguma imprensa israelita antevê que Netanyahu, para salvar a face apesar da notória falta de apoio até dos seus aliados mais próximos, possa anunciar nos próximos dias a anexação de um colonato ilegal nos arredores de Jerusalém.

Iniciativa que poderá provocar uma reação em cadeia, quando a maioria das grandes potências mundiais já se mostraram contra o plano e ameaçaram com consequências.

Esta quarta-feira, num editorial publicado no Yedioth Ahronoth, o jornal de maior tiragem de Israel, o primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, fez eco de palavras que proferiu a 16 de junho no Parlamento do Reino Unido.

"Muito no fundo, espero que a anexação não se concretize. Se for em frente, o Reino Unido não irá reconhecer quaisquer mudanças às linhas de 1967, exceto as acordadas entre as partes", escreveu Boris Johnson.

"A anexação iria ser uma violação da lei internacional", escreveu ainda Johnson, cujo bisavô materno era judeu, nascido em Moscovo.

Assumindo que, na sua juventude, chegou a trabalhar num kibbutz e que tem sido sempre um "defensor apaixonado de Israel", Johnson deixou apelos a uma solução que garanta justiça e segurança tanto a israelitas como a palestinianos.

Pelo contrário, a anexação prevista "iria por em risco os progressos que Israel tem conseguido na sua relação com o mundo islâmico e árabe", alertou ainda o primeiro-ministro britânico.

Também a França, pela voz do seu ministro dos Negócios Estrangeiros, Jean-Yves Le Drian, reagiu com avisos de "consequências" à possibilidade da anexação prevista ser implementada.

"A anexação de territórios palestinianos, fossem quais fossem os perímetros, iria questionar seriamente os parâmetros de resolução do conflito", disse Le Drian esta quarta-feira numa audição parlamentar em Paris.

"Uma decisão de anexação não poderia deixar de ter consequências e estamos a estudar várias opções a nível nacional e também em coordenação com os nossos principais parceiros europeus", acrescentou.

Entre a espada da pandemia e a parede da comunidade internacional, e com os Estados Unidos de Trump a dar apenas um sinal amarelo ao avanço dos seus planos, Benjamin Netanyahu está a ser forçado, para já, a marcar passo.
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