Entre junho de 1985, com a queda do governo do Bloco Central e março de 1986, quando Mário Soares se tornou no primeiro civil em sessenta anos a tomar posse como Presidente da República, Portugal viveu um dos períodos mais intensos, participados e surpreendentes da nossa vida democrática. Em apenas nove meses, houve reviravoltas dramáticas, com um resultado até ao fim impossível de prever. Soares é o protagonista desta história: partindo de uma posição debilitada, como primeiro- ministro de um governo impopular, triunfou sucessivamente sobre os adversários à sua esquerda e à sua direita. É até possível ver nas eleições de 1986 uma versão condensada de toda a sua trajetória política. Na primeira volta, na disputa com Maria de Lourdes Pintasilgo e Francisco Salgado Zenha (e, através deste, com Ramalho Eanes e Álvaro Cunhal), havia ecos inequívocos dos combates que Soares tinha travado nos primeiros anos após a Revolução, contra o PCP e contra a intervenção dos militares na vida política. Apenas três semanas depois, no confronto decisivo contra Freitas do Amaral, Soares teve a tarefa hercúlea de unir a esquerda, não deixando para isso de evocar a memória afetiva dos longos anos de combate à ditadura. O país dividiu-se em duas metades quase perfeitas, entre esquerda e direita e Soares venceu por uma margem mínima. Naquele mesmo dia, declarou solenemente pretender unir o país. Foi tão bem-sucedido neste seu propósito que, cinco anos mais tarde, havia de ser reeleito com mais de 70% dos votos, um absoluto record na nossa história democrática. Quando a campanha para as presidenciais de 1986 se iniciou, no entanto, tal desenlace não era remotamente previsível. A imagem de Soares estava desgastada por dois anos de chefia do governo, em circunstâncias de profunda crise económica, que o obrigaram a pôr em prática medidas duras, acordadas com o FMI. Uma sondagem realizada no final de agosto atribuía-lhe apenas 8% de intenções de voto.