Geoparque Açores em 5 minutos
Crise de 1964 em São Jorge|17 fev. 2026
Em fevereiro, a memória açoriana recua inevitavelmente a 1964, quando em São Jorge a terra tremeu.
A formação de São Jorge associa-se exclusivamente a vulcanismo basáltico fissural, ou seja, a ilha não apresenta nenhum grande edifício vulcânico central, em vez disso, apresenta-se como uma extensa cordilheira vulcânica, que é composta por cerca de 350 pequenos vulcões - a sua maioria cones de escórias. Estes pequenos vulcões surgiram alinhados ao longo de um conjunto de falhas e fraturas que existem na crosta terrestre - daí a forma estreita e alongada da ilha. O vulcanismo que edificou a ilha de São Jorge incluiu também episódios de atividade vulcânica submarina, e que levaram à formação dos cones de tufos surtseianos do Morro Grande de Velas e do Morro de Lemos.
Em tempos históricos, desde o povoamento, sabe-se da ocorrência de duas erupções em terra - a de 1580 e a de 1808.
A erupção de 1580 deu origem a escoadas de lava basáltica emitidas em três focos principais, junto da Ribeira do Almeida, na Queimada (a sul de Santo Amaro) e entre a Ribeira do Nabo e a praia das Cruzes (a oeste da Urzelina).
E a de 1808, conhecida como o Mistério da Urzelina, os produtos vulcânicos foram emitidos das Bocas de Fogo (ou Caldeirinhas), um conjunto de crateras localizado na cordilheira vulcânica central da ilha e movimentaram-se para sul ao longo das encostas, tendo atingido o mar na zona da Urzelina.
Entre agosto de 1963 e fevereiro de 1964, a ilha de São Jorge enfrentou uma intensa crise sísmica. Após pequenos sismos sentidos em várias ilhas, a atividade intensificou-se de forma abrupta a 15 de fevereiro de 1964, com centenas de abalos diários, inicialmente concentrados entre Urzelina, Manadas e Pico da Esperança, e deslocando-se depois para a zona dos Rosais. Os sismos causaram estragos significativos, destruindo grande parte das casas nos Rosais e nas Velas e danificando mais de 900 habitações. Durante este período foram também registados cheiros sulfurosos e observada uma mancha esbranquiçada no mar, sugerindo uma possível erupção submarina.
A crise teve antecedentes claros. Em 13 de dezembro de 1963, os sismógrafos do Observatório de Horta registaram um tremor de terra vulcânico contínuo, que persistiu até janeiro de 1964 e que foi inicialmente associado ao vulcão dos Capelinhos. A 29 de janeiro e 1 de fevereiro, dois cabos submarinos que atravessavam o canal de São Jorge romperam por tração, o que reforçou a suspeita de instabilidade tectónica e vulcânica na região.
No dia 14 de fevereiro, foram sentidos novos tremores vulcânicos, imediatamente antes do início da fase mais intensa da crise, que teve início a 15 de fevereiro pelas 07h00. Nesse dia foram sentidos 179 sismos, seguindo-se 125 no dia 16, e diminuindo gradualmente a partir daí. Os cheiros a enxofre entre 18 e 20 de fevereiro nas Velas e, posteriormente, nos Rosais, Beira, Santo Amaro e Norte Grande reforçaram a hipótese de atividade vulcânica submarina não visível devido ao estado do mar. Acrescenta-se o facto de a tripulação de uma embarcação que atravessou o canal durante uma forte tempestade ter relatado a presença de uma grande mancha esbranquiçada na superfície do mar, possível indício do local desta erupção submarina (Zbyzewski et al., 1977).
Hoje, ao recordar a crise sísmica de 1964, não se assinala apenas um acontecimento geológico, celebra-se também a capacidade das comunidades em enfrentar o medo, reconstruir o que perdeu e continuar a viver entre vulcões, falésias e fajãs - numa ilha cuja identidade está profundamente entrelaçada com a sua história geológica.