Alterações climáticas. 2021 pautado por cimeiras e fenómenos extremos

Muitas horas de conversa em cimeiras e a continuação de fenómenos ambientais extremos - assim foi o ano de 2021 no que respeita às alterações climáticas, em revista pelo jornal "The Guardian".

RTP /
Os níveis de toxicidade do ar levaram o Governo do Paquistão a prolongar os fins de semana em Novembro Reuters

Após a confirmação de que 2020 foi um dos anos mais quentes de que há registo, o ano que se lhe seguiu foi marcado por cimeiras como a das Nações Unidas em Glasgow, em que a falta de ambição foi a principal crítica dos países mais afetados pelas alterações climáticas e por associações ambientais.

Ativistas, como a jovem sueca Greta Thunberg, desvalorizaram as promessas de boas intenções dos políticos e pediram medidas concretas para combater o aquecimento do planeta. Thunberg lembrava que, se tudo continuar como está, as emissões de carbono vão crescer 16 por cento até 2030.
As conferências e os anúncios
Três meses antes da cimeira de Glasgow, o Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas alertava que, a manter-se o atual ritmo de emissões de gases com efeito de estufa, a temperatura da Terra vai subir 2,7 graus até 2100, o que significa que o planeta está a aquecer mais e mais depressa.

Em Outubro, a China anunciava a criação de um novo fundo para proteger a biodiversidade nos países em desenvolvimento, com 200 milhões de euros, na conferência das Nações Unidas sobre biodiversidade COP15.

Quando estava em Glasgow, o novo presidente dos Estados Unidos – entre cujas primeiras medidas se contou a reintegração dos EUA no Acordo de Paris - viu o seu projeto de lei aprovado pela Câmara dos Representantes. O plano prevê 450 mil milhões de euros (555 mil milhões de dólares) para o combate às alterações climáticas. Segundo a Casa Branca, vai reduzir "os custos de energia dos consumidores (...), criará centenas de milhares de empregos de alta qualidade e promoverá a justiça ambiental".

Na primeira semana da 26ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas (COP26) foram celebrados acordos para reduzir as emissões de metano, para travar a desflorestação na Amazónia, para ajudar os países menos desenvolvidos a entrentar os impactos das alterações climáticas, para garantir que o aquecimento global não é superior em 1,5ºC aos níveis pré-industriais e centenas de bancos e fundos de pensões comprometeram-se a limitar as emissões de gases com efeito de estufa.

Contudo, logo após o discurso de abertura, o primeiro-ministro do Reino Unido decidiu fazer a viagem Glasgow-Londres de jato particular. E no final da Cimeira, o presidente Alok Sharma pedia desculpas por o acordo não ser mais arrojado.

Em meados de Dezembro, a Organização Meteorológica Mundial anunciou que a cidade russa de Verkhoyansk, no Ártico, tinha registado a 20 de Junho de 2020, a temperatura recorde de 38° Celsius, um novo "sinal de aviso sobre as alterações climáticas".
Catástrofes climáticas
Os contrastes continuaram a intensificar-se no ano que passou. De acordo com o jornal The Guardian, o continente africano registou o mês de janeiro mais quente, enquanto na Malásia, as chuvas torrenciais obrigaram à evacuação de 50 mil pessoas. Morreram pelo menos seis pessoas. Ao mesmo tempo, cresciam os receios em Istambul de que a cidade ficaria sem água após a seca mais severa da última década.
Ainda em Fevereiro, 10 orangotangos ameaçados de extinção foram devolvidos à selva na Indonésia. Em Madagáscar, os cientistas acreditam ter encontrado o menor réptil da Terra, um nano-camaleão, com um corpo de apenas 13,5 mm de comprimento, o tamanho de uma semente de girassol.
Nos Estados Unidos, a Califórnia mais do que duplicou o recorde anual de incêndios florestais, com mais de 1,7 milhão de hectares (4,1 milhões de acres) queimados. Um mês depois, noutro Estado do mesmo país, o Texas, uma tempestade de neve deixou quase 10 milhões de pessoas sem energia e milhões sem água após o rompimento das canalizações. Esta foi considerada a tempestade de neve que causou mais danos.

Em março, as cheias inundavam a Austrália, o que levou à deslocação de milhares de pessoas. A indústria de seguros recebeu pedidos de indemnizações no valor de milhões de dólares. A mesma região, Nova Gales do Sul, estava também a passar por uma praga de ratos.
Luta nos tribunais
Na primavera, os tribunais são o principal palco da luta contra as alterações climáticas. Na Alemanha, o Supremo Tribunal Constitucional concluiu que as medidas de proteção climática do governo eram insuficientes para proteger as gerações futuras, o que levou o executivo a prometer novas ações.

De acordo com o The Guardian, a corrente quente associada a mudanças severas e abruptas no clima – a Circulação Meridional Invertida do Atlântico - atingia o seu ponto mais fraco em pelo menos 1.600 anos, concluíram os cientistas.

Um tribunal holandês ordenou o corte das emissões de carbono da Shell em 45 por cento até ao final de 2030, o que terá implicações para a indústria de energia.

Na Austrália, o tribunal federal considerou que a ministra do Ambiente tinha o dever de zelar pela proteção dos jovens em relação à crise climática, o que foi considerado um reconhecimento inédito.

Em França, o ministro da transição ecológica anunciou que retiraria a carne dos menus escolares uma vez por semana.
Recordes de temperaturas no Verão
A Europa e a Ásia tiveram o segundo mês de junho mais quente já registado, enquanto os recordes absolutos deste mês foram quebrados na África e na Nova Zelândia.

A costa Oeste da América do Norte registou em junho o que os meteorologistas chamam de "cúpula de alta pressão", uma onda de calor que agravou a seca até ao Canadá, onde as temperaturas subiram para 49,6ºC. “Este é o início de uma emergência permanente”, dizia o governador do Estado de Washington.

Estes valores subiram no mês de julho, quando a temperatura média da superfície global em julho foi a mais alta desde que as medições começaram em 1880, com o Vale da Morte na Califórnia a registar 54,4 ° C.

Com o agravamento das ondas de calor e das secas nos Estados Unidos, a Índia, a China e a Europa foram atingidas por inundações. Chuvas torrenciais na costa oeste da Índia causaram 115 mortes, enquanto a província de Henan, na China, choveu o equivalente a um ano - 604 milímetros - num único dia.

Na Alemanha, mais de 100 pessoas morreram nas cheias, depois de o sistema de alerta ter falhado.

O governo australiano continuou a tentar evitar declarar a Grande Barreira de Coral uma zona de perigo, alegando temer o impacto que a declaração teria sobre os empregos.

No Reino Unido, a companhia de água Southern Water foi multada em 90 milhões de libras, após uma investigação ter encontrado provas de que tinha deliberadamente despejado esgoto não tratado no mar para evitar o custo de modernização da infraestrutura.

Na Gronelândia, novos dados apontam para o aumento do degelo. Em Agosto, desaparecia num único dia uma quantidade de gelo suficiente para cobrir o Estado da Flórida com 5 centímetros de água.


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