Mundial feminino. Futebolistas manifestam-se contra desigualdade salarial

| Futebol Internacional

Em abril, a FIFA vendeu um número recorde de bilhetes para o Campeonato do Mundo
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O Mundial de Futebol feminino, a decorrer desde 7 de junho, está a ser marcado pela discussão acerca dos diferentes salários e prémios que as jogadoras recebem, em comparação com os homólogos masculinos. A FIFA promete investir mais no futebol feminino, no futuro.

O futebol feminino tem ganho popularidade. Em abril, a FIFA vendeu um número recorde de bilhetes para o Campeonato do Mundo: mais de um milhão. Os jogos de abertura (França-Coreia do Sul), as meias-finais e a final esgotaram em menos de 48 horas.

A FIFA conta atingir um milhão de milhões de telespetadores, uma subida dos 750 milhões face à prova de 2015. O valor dos prémios aumentou, assim como o número de patrocinadores oficiais, como é o caso da Qatar Airways e a Visa.

Apesar da crescente popularidade do torneio, as futebolistas questionam a discrepância entre os seus salários e o montante final de cada prémio, quando comparados com o equivalente recebido pelos colegas masculinos.Disparidade não se deve a diferenças de lucros
Um relatório da FifPro, a união mundial de jogadores, revelou que 88 por cento das jogadoras na Super Liga Feminina de Inglaterra recebem menos de 20 mil euros por ano e que 58 por cento já consideraram desistir do desporto por motivos financeiros.

Outro relatório da Sporting Intelligence concluiu também que o salário do futebolista Neymar é equivalente aos salários combinados das sete futebolistas mais bem pagas e é equivalente aos salários combinados de 1693 futebolistas em França, Inglaterra, Alemanha, Estados Unidos, Suécia, Austrália e México.

Quanto ao montante recebido de prémios, este depende das federações nacionais, que escolhem quanto pagar aos jogadores.

"Ao final do dia, o valor do prémio acaba por ser tão pequeno para as mulheres quando comparado com o dos homens, que vemos jogadoras a dependerem mais de patrocínios, salários dos clubes e da federação", diz Caitlin Murray, autora de "A Equipa Nacional: A História das Mulheres que Mudaram o Futebol".

As vencedoras do Mundial receberão 3,5 milhões de euros, mas, no Mundial masculino de 2018, os vencedores receberam o prémio no valor de 35.5 milhões de euros, dez vezes mais do que as futebolistas. E, na totalidade, 26 milhões de euros serão distribuídos por todas as equipas participantes, mas 353 milhões receberam as equipas masculinas em 2018.

Em custos de preparação e compensação para os clubes, as equipas femininas receberam 700 mil euros, enquanto as equipas masculinas receberam 1,3 milhões.

É frequentemente dito que a desigualdade salarial no desporto está associada aos lucros comerciais gerados pelas mulheres e pelos homens, mas tal não corresponde à realidade. De facto, a FIFA afirma que as receitas comerciais vindas do Mundial de Futebol Feminino não podem ser separadas das outras competições da FIFA porque os direitos comerciais são vendidos como um pacote.

Ruth Holdaway, diretora executiva da organização Mulheres no Desporto, disse ao Guardian que não é apenas uma questão de igualdade salarial: "Nós adoraríamos ver mais instituições de futebol a valorizar as atletas femininas como valorizam os atletas masculinos. Não é apenas sobre salários iguais; é sobre a mensagem que é mandada sobre quanto as mulheres são valorizadas".

E acrescenta: "No ténis, o empenho quanto à igualdade salarial em Wimbledon é um bom exemplo de uma instituição de desporto que percebeu que enquanto os jogos dos homens e das mulheres são diferentes, os jogadores fazem o mesmo esforço e todos estão a trabalhar à altura das suas capacidades".

Apesar da disparidade salarial, a FIFA decidiu duplicar o montante atribuído a todas as equipas femininas (de 13 para 26 milhões) e planeia investir entre 353 e 440 milhões no futebol feminino, no futuro.Jogadoras de todo o mundo em protesto
Nos Estados Unidos, a equipa de futebol feminina intentou uma ação judicial contra a associação nacional de futebol por disparidades salariais.

A seleção nacional alemã protagonizou, a um mês do Mundial, um anúncio onde criticava a desvalorização do esforço e das conquistas da equipa feminina. A equipa venceu dois mundiais, oito Europeus e o ouro nos Jogos Olímpicos de 2016. Contudo, as jogadoras dizem que não obtêm o reconhecimento merecido. "Jogamos por um país que nem sabe os nossos nomes", disseram no vídeo.



As jogadoras australianas pediram à FIFA que recompensasse mulheres e homens de forma igualitária.

Em 2016, após a vitória no Campeonato Africano de Futebol Feminino, a equipa nigeriana fez um protesto num hotel contra pagamentos pendentes que lhes eram devidos.

A somar a esta situação, estão os preconceitos que as jogadoras enfrentam. No vídeo da equipa alemã, as atletas referem comentários como "as mulheres só servem para fazer bebés" ou "estavam bem é na lavandaria".

No ano passado, as jogadoras do clube brasileiro Corinthians entraram em campo com frases sexistas nas camisolas, retiradas das redes sociais do clube e de sites de jornais desportivos. Entre estes comentários, figuravam "mulher é na cozinha e não jogando futebol", e "Futebol feminino só vai ser bom quando acabar".


Mas as futebolistas alemãs relembram: "Quando se trata de ídolos, apenas temos de olhar para o espelho".

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