Síria. Metade de Alepo controlada pelas forças jihadistas e rebeldes
Os jihadistas e os seus aliados tomaram “a maior parte” de Alepo depois de uma ofensiva contra as forças governamentais de Bashar-al Assad, revelou o Observatório Sírio dos Direitos Humanos, relatando ataques russos na segunda cidade da Síria pela primeira vez desde 2016.
Segundo a ONG, o número de mortos da ofensiva lançada na quarta-feira subiu para 311 - 183 combatentes do HTS e seus aliados, 100 soldados e membros das forças pró-governamentais e 28 civis. Os jihadistas e os seus aliados chegaram à cidadela histórica de Alepo depois de as forças do regime sírio se terem retirado “sem luta” nesta última fase, acrescentou o diretor da ONG sediada no Reino Unido, que dispõe de uma vasta rede de fontes na Síria.
Segundo a Reuters, que cita fontes militares, as autoridades sírias fecharam, este sábado, o aeroporto de Alepo, bem como todas as estradas que levam à segunda cidade da síria, numa altura em que os rebeldes que se opõem ao presidente Bashar al-Assad disseram ter chegado ao coração de Alepo.
Os combates são os mais violentos desde 2020 na região, onde a província de Alepo, maioritariamente detida pelo regime de Bashar al-Assad, faz fronteira com o último grande reduto rebelde e jihadista de Idleb.
Os combatentes jihadistas entraram em Alepo na sexta-feira, após uma ofensiva de dois dias que pôs fim a anos de relativa calma no noroeste da Síria.
Os combatentes da oposição, liderados pelo grupo militante islâmico Hayat Tahrir al-Sham, realizaram investida surpresa através de cidades controladas pelo governo esta semana e chegaram a Alepo quase uma década depois de terem sido forçados a sair por Assad e seus aliados.
Os rebeldes tomaram igualmente o controlo da cidade estratégica de Saraqeb, a sul de Alepo, no cruzamento de duas autoestradas que ligam Damasco a Alepo e Latakia.
Segundo o OSDH, o grupo jihadista HTS e os grupos aliados, alguns deles próximos da Turquia, tinham chegado às portas da cidade na sexta-feira, após “dois ataques suicidas com carros armadilhados”. Em seguida, tomaram progressivamente o controlo de um número crescente de bairros, segundo esta fonte.
O exército sírio, que enviou reforços para Alepo, segundo um responsável da segurança, afirmou ter repelido “a grande ofensiva dos grupos terroristas” e recuperado várias posições.O exército russo anunciou que a sua força aérea estava a bombardear grupos “extremistas” na Síria em apoio às forças do regime, de acordo com as agências russas. A força aérea síria também lançou ataques intensivos na região de Idleb, revelou o OSDH.
Outro aliado fiel da Síria, o Irão reiterou o seu “apoio contínuo” ao país, onde se comprometeu militarmente a apoiar o Presidente Assad durante a guerra civil.
Na sexta-feira, o Kremlin apelou às autoridades sírias para que “ponham ordem na situação o mais rapidamente possível” em Alepo.
A Rússia, um dos principais aliados de Assad, prometeu a Damasco uma ajuda militar suplementar para contrariar os rebeldes, disseram duas fontes militares à Reuters, acrescentando que o novo hardware começaria a chegar nas próximas 72 horas. Damasco espera que o novo equipamento militar russo comece a chegar à base aérea russa de Hmeimim, perto da cidade costeira síria de Latakia.
O chefe do autoproclamado “governo” de Idleb, Mohammad al-Bashir, justificou a ofensiva na quinta-feira, acusando o regime de ter “começado a bombardear zonas civis, o que provocou o êxodo de dezenas de milhares de civis”.
Os rebeldes, que começaram a sua incursão na quarta-feira, estão a regressar Alepo pela primeira vez desde 2016, quando Assad e os seus aliados Rússia, Irão e milícias xiitas regionais a reconquistaram, com os insurgentes a concordarem em retirar-se após meses de bombardeamentos e cerco.
Os combatentes da oposição disseram que a campanha era uma resposta à intensificação dos ataques nas últimas semanas contra civis pela força aérea russa e síria em áreas de Idlib controladas pelos rebeldes, e para evitar quaisquer ataques do exército sírio.
O ataque é o maior desde março de 2020, quando a Rússia e a Turquia chegaram a um acordo para desanuviar o conflito.
Fontes da oposição em contacto com os serviços secretos turcos disseram que a Turquia, que apoia os rebeldes, tinha dado luz verde à ofensiva.
No entanto, o porta-voz do Ministério turco dos Negócios Estrangeiros, Oncu Keceli, afirmou na sexta-feira que a Turquia procurava evitar uma maior instabilidade na região e tinha avisado que os recentes ataques minavam os acordos de redução de intensidade do conflito.
Guerra civil matou mais de meio milhão Durante a guerra civil que eclodiu em 2011, matou mais de meio milhão de pessoas e deslocou milhões de pessoas, o HTS, dominado pelo antigo ramo sírio da Al-Qaeda, tomou o controlo de vastas áreas da província de Idleb e de territórios vizinhos nas regiões de Alepo, Hama e Latakia.
Em 2015, o regime sírio recuperou o controlo de uma grande parte do país com o apoio dos seus aliados russos e iranianos. Em 2016, as suas forças, apoiadas pela força aérea russa, reconquistaram a parte oriental de Alepo aos insurretos, após bombardeamentos devastadores.
Nos últimos anos, o norte da Síria tem desfrutado de uma calma precária, possibilitada por um cessar-fogo introduzido após uma ofensiva do regime em março de 2020.
A trégua foi patrocinada por Moscovo em conjunto com a Turquia, que apoia alguns grupos rebeldes sírios na sua fronteira.