Morreu David Lynch. Realizador de "Twin Peaks" tinha 78 anos
David Lynch, co-criador da inovadora série televisiva "Twin Peaks", morreu aos 78 anos, informou a sua família esta quinta-feira. O cineasta, escritor e artista norte-americano foi nomeado para o Óscar de melhor realizador por "Veludo Azul", "O Homem Elefante" e "Mulholland Drive".
"Há um grande buraco no mundo agora que ele já não está entre nós. Mas, como ele diria: 'Mantém os olhos no donut e não no buraco'. Está um dia lindo, com sol dourado e céu azul até ao fim".
Lynch recebeu um Óscar honorário em 2019 pelos seus feitos ao longo da vida. O Festival de Veneza deu-lhe o Leão de Ouro de carreira em 2006.
O enigmático artista preferiu não explicar os seus complexos e desconcertantes filmes, que incluíam " Um coração selvagem" – vencedor da Palma de Ouro de 1990 no Festival de Cannes -, o filme de terror de 1977 "Eraserhead" e o mistério de 1997 "Lost Highway".
"Um filme ou uma pintura, cada coisa é o seu próprio tipo de linguagem e não é correto tentar dizer a mesma coisa em palavras. As palavras não estão lá", explicou ao jornal The Guardian numa entrevista em 2018.
Lynch dizia não se interessar apenas pela história, mas também pelo clima do filme, definido pelos elementos visuais e sonoros trabalhados em conjunto.
"O seu olho para o pormenor absurdo (…) e o seu gosto por material arriscado, muitas vezes grotesco, fizeram dele, talvez, o excêntrico mais venerado de Hollywood, uma espécie de Norman Rockwell psicopata", referiu o jornal New York Times em 1990.
Enquanto estudante de arte na Academia de Belas Artes da Pensilvânia, na década de 1960, viveu numa zona de Filadélfia degradada e dominada pelo crime com a mulher e a filha. Mais tarde, descreveu a cidade como a maior influência da sua vida.
A experiência inspirou "Eraserhead", o seu filme de estreia, que se tornou um êxito de culto. Depois de ver o filme, Brooks, o produtor de "O Homem Elefante", contratou Lynch para o realizar.
"O Homem Elefante", sobre um homem gravemente deformado na Londres vitoriana, foi nomeado para oito Óscares da Academia em 1981. Embora não tenha conseguido ganhar um Óscar, lançou Lynch para a ribalta.
Dois anos mais tarde, o realizador voltou ao topo com "Veludo Azul", que se debruçava sobre o misterioso submundo de uma pequena cidade da Carolina do Norte. Alguns críticos consideraram-no a sua obra-prima e o melhor filme da década.
Mário Augusto considerou que a morte do realizador é uma "notícia triste para o cinema" e lembrou os filmes que "nos põem a pensar de uma forma muito inquietante".
David Lynch experimentou o formato televisivo em 1990, quando criou a série policial de mistério "Twin Peaks" com Mark Frost para a ABC. A série, vencedora de um Emmy, tornou-se um fenómeno cultural.
Já "Mulholland Drive", de 2001, começou como série televisiva mas foi abandonada pela estação e acabou por chegar ao grande ecrã. Numa sondagem da BBC de 2016, foi considerado o melhor filme do século XXI até à data.
Nos seus últimos anos, Lynch dedicou-se à realização de documentários, curtas-metragens, pintura e um canal no YouTube. Lançou álbuns, vídeos musicais, bandas sonoras e livros, incluindo o seu livro de memórias de 2018 "Room to Dream".
O aclamado realizador foi casado quatro vezes e teve quatro filhos.
"Adoro o que faço e posso trabalhar nas coisas em que quero trabalhar. Gostaria que todos tivessem essa oportunidade", disse ele ao site Vulture numa entrevista em 2018.
c/ agências