Livro mostra processo do resgate a Portugal visto dos "bastidores"

O livro "Resgatados" relata os "bastidores" das negociações da intervenção externa a Portugal, que provocou sérios conflitos no Governo socialista, e a resistência até ao último momento de José Sócrates em fazer o pedido às instituições internacionais.

Um ano e meio após a assinatura do memorando de entendimento com a `troika`, os jornalistas David Dinis (semanário Sol) e Hugo Filipe Coelho (Diário de Notícias) lançam o livro "Resgatados - Os bastidores da ajuda financeira a Portugal", em que relatam os principais acontecimentos da vida política desde o início de 2010, quando começa a aumentar a pressão dos mercados a Portugal, até abril de 2011, quando o ex-primeiro-ministro José Sócrates anunciou ao país o pedido de intervenção externa.

Para isso, os dois jornalistas precisaram de quase um ano "de trabalho intenso" e fizeram "mais de 60 entrevistas" a pessoas que, de uma forma ou de outra, estiveram por dentro do processo: Governantes, deputados, banqueiros, diplomatas, economistas, parceiros sociais, membros da `troika`, órgãos de soberania em geral.

"A ideia surgiu durante as eleições legislativas de 2011 e partiu do David Dinis, o resgate desapareceu muito rapidamente do discurso político da campanha mas era o tema principal nos bastidores, ele começou a falar-me disso, contou-me que estava mesmo decidido a avançar quando voltámos ao trabalho em setembro, um dia, o David convidou-me", contou à agência Lusa Hugo Filipe Coelho, que integra a equipa de política do DN, onde na altura também trabalhava David Dinis.

O jornalista disse que "a ideia era contar a história dos bastidores, de como é que chegamos àquilo", já que "havia uma série de dúvidas sobre o que foi, digamos, a antecâmara do pedido de ajuda externa".

"Andámos uns três meses a fazer entrevistas, a cruzar toda a informação, a voltar às pessoas, a reconstituir diálogos e conversas com muito cuidado. Depois disso foi preciso montar o `puzzle` com a informação toda", resumiu, deixando um elogio às fontes que se prestaram a colaborar.

Este tipo de livro "não é uma coisa habitual em Portugal, mas fiquei surpreendido com a disponibilidade de muita gente com quem falámos, foram muito poucas as que recusaram falar e houve pessoas que estavam realmente empenhadas em ajudar-nos, que tiveram contributos essenciais", afirmou Hugo Coelho.

Ao longo das 228 páginas, são relatados momentos de tensão e as divergências no Governo socialista quanto à situação portuguesa e ao pedido de intervenção, que terminou com um corte de relações entre José Sócrates e Fernando Teixeira dos Santos.

Na tarde de 06 de abril de 2011, Teixeira dos Santos defende ao Jornal de Negócios que Portugal deve recorrer aos mecanismos de financiamento externos, sem qualquer aviso prévio ao primeiro-ministro, que nessa mesma noite faz o anúncio ao país em direto nas televisões.

No livro, que aborda também o desgaste da relação de Sócrates com Luís Amado, são reveladas as visitas de membros da Comissão Europeia e do Banco Central Europeu a Lisboa para delinearem o que mais tarde viria a ser o PEC IV, para além dos meses de negociações intensas com as instituições europeias.

Em fevereiro de 2011, a uma semana de um Conselho Europeu, José Sócrates decide mesmo enviar Pedro Lourtie, Vítor Escária e Francisco Duarte Lopes, três dos seus homens de confiança, a Berlim e Paris, em segredo, para tentar sensibilizar Merkel e Sarkozy de que "o país estava a reagir bem" e não precisava de ajuda.

Quando teve de negociar medidas adicionais, o primeiro-ministro do PS, que nos últimos meses tinha em São Bento um computador ligado à Reuters para verificar a oscilação dos juros em Portugal, Espanha e Itália, manteve todo o processo em segredo mesmo dentro do seu Governo.

A condução do processo e a negociação com as instituições europeias estava concentrada no seu núcleo duro: Pedro Silva Pereira, Vieira da Silva, Augusto Santos Silva, Almeida Ribeiro, Jorge Lacão, João Tiago Silveira e Teixeira dos Santos.

Como é referido na obra, ministros como António Serrano, Gabriela Canavilhas, Ana Jorge, Alberto Martins e Dulce Pássaro tinham passado ao lado de todo o processo.

O livro é apresentado a 09 de outubro, num centro comercial de Lisboa, pelo diretor do Jornal de Negócios, Pedro Santos Guerreiro.

TAGS:Berlim, Dinis, Lacão, Merkel,

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