Jogos Olímpicos 2024
Crónica de bastidores. Três dias, onze tentativas por dia
"Six cent deux". Não estando disponível em seringas, para injetar diretamente no pensamento para ação imediata em jejum, nem a cafeína me salva de uma pequena vergonha matinal quando tenho que validar com o número do quarto o legítimo acesso ao pequeno-almoço: "Bonjour!" (Junta um sorriso, João Pedrô) Chambre... êh... soiss...six...ââ...
Bon!(desisto)... six - zerô- ân.
E em certa medida, é uma boa solução.
A concièrge já sabe o meu número de cor, sublinha a autorização com uma gargalhada genuína, que por um lado me amolga de vergonha, por outro me assegura uma certa estima. Quem é que detesta quem nos faz rir?
Nunca me dei com este sistema francês tortuoso, que transforma um simples número numa equação, só porque sim: "seis-centos-e-dois" até é para meninos, numa língua que opta por "quatre vingt et un" "4 vintes e um" para ditar 81, só porque sim. Não bastava que os preços fossem, eles próprios, difíceis de acreditar, ainda têm de bónus o tão difícil de formular!
E ainda assim, no caro exercício do comer, há experiências de tom fofinho e até comovente, se comparadas com as da nossa nação. Por exemplo: cá, as saladas servem-se temperadas. O gosto dos verdes crus não é, como em Portugal, aquele exercício tipo sushi, em que te cabe produzir o sabor pós pagamento, caso não se esqueçam de trazer à mesa sal, azeite, vinagre e demais optativos. Partindo do princípio que conseguirás mexer depois da fazer, antes que a alface coza naquele cantinho ao lado do prato atafulhado.
Ah!!! A propósito de atafulhado: acabei de me lembrar que num destes dias, aprendi que essa pirâmide de comida a que chamamos "bife com ovo a cavalo" nos faz países irmãos. "œuf à cheval"! Estava no menu num dia destes. E lá vi o meu querido Rodrigo Lobo, o meu braço armado de câmera e tudo o mais em Paris, usar toda a perícia ganha em Portugal, para sacar as lascas de carne francesa sob o ovo sem o estraçalhar. Mais uma experiência cara em Paris? Oui! Mas sabem que mais? Cá, o pão para molhar na gema ou mais o que quer que for é gratuito e à discrição. E a água, até a geladinha, vem para a mesa aos litros que quiseres, sem gastar um cêntimo. Podes pagar tudo ao preço de um rim, mas ici, podes viver a pão e água sem pagar.
Sim, levo daqui experiências tortas e retas. Novas e renovadas. E, por esta altura, toda uma veterania a compor números à francesa e amizades à gaulesa.
No hotel, além de já não precisar dessa habilitação matemática para enunciar o meu quarto, a senhora que limpa já me deixa seis cápsulas de café "fort" em vez de uma de forte e descafeinado. No pequeno-almoço a senhora que nos atura já topa o meu fim de refeição e avança de copo de papel para mim, para me evitar a vergonha de não me lembrar que se diz "gobelet". E vem de sorriso generoso e cheio, que nisso somos iguais desde o dia um, numa cumplicidade de que vou ter saudades.
Não chego - seria impossível- ao nível de empatia ganha pelo João Miguel Nunes, o mais medalhado olímpico em popularidade da comitiva RTP. Mas descobri que ele dopa a relação com os funcionários: consta que além dos sorrisos francos e simpatia natural, ele brinda os bons dias com concertos "A Capella", canta-lhes ainda antes de beber café quando diz bom dia. É concorrência desleal? É. Mas consta as senhoras que arrumam os quartos já deixam lágrimas de saudades dele, agarradas às toalhas limpas, porque a despedida está já aí.
Ontem, antecipando a dor da partida, o meu próprio regresso ao quarto foi... doce.
Sobre a cama, um saquinho de ladrilhos de chocolat e um bilhete da gerente. Mensagem em português irrepreensível, escrito à mão. Deu-me mais que chocolate, deu-me o seu tempo. Já sei que, como eu recebi aquela medalha de carinho escrito que está na foto, cada um de nós teve direito à sua.
Não faço ideia se o texto é o mesmo para todos, se o brinde é equivalente em doçura. Nem preciso. Mas se o nosso líder em empatia, João Miguel Nunes, para os amigos Jomi, aparecer com diabetes pós-olímpicos, bem feito! Quem o manda ser mais doce?
E em certa medida, é uma boa solução.
A concièrge já sabe o meu número de cor, sublinha a autorização com uma gargalhada genuína, que por um lado me amolga de vergonha, por outro me assegura uma certa estima. Quem é que detesta quem nos faz rir?
Nunca me dei com este sistema francês tortuoso, que transforma um simples número numa equação, só porque sim: "seis-centos-e-dois" até é para meninos, numa língua que opta por "quatre vingt et un" "4 vintes e um" para ditar 81, só porque sim. Não bastava que os preços fossem, eles próprios, difíceis de acreditar, ainda têm de bónus o tão difícil de formular!
E ainda assim, no caro exercício do comer, há experiências de tom fofinho e até comovente, se comparadas com as da nossa nação. Por exemplo: cá, as saladas servem-se temperadas. O gosto dos verdes crus não é, como em Portugal, aquele exercício tipo sushi, em que te cabe produzir o sabor pós pagamento, caso não se esqueçam de trazer à mesa sal, azeite, vinagre e demais optativos. Partindo do princípio que conseguirás mexer depois da fazer, antes que a alface coza naquele cantinho ao lado do prato atafulhado.
Ah!!! A propósito de atafulhado: acabei de me lembrar que num destes dias, aprendi que essa pirâmide de comida a que chamamos "bife com ovo a cavalo" nos faz países irmãos. "œuf à cheval"! Estava no menu num dia destes. E lá vi o meu querido Rodrigo Lobo, o meu braço armado de câmera e tudo o mais em Paris, usar toda a perícia ganha em Portugal, para sacar as lascas de carne francesa sob o ovo sem o estraçalhar. Mais uma experiência cara em Paris? Oui! Mas sabem que mais? Cá, o pão para molhar na gema ou mais o que quer que for é gratuito e à discrição. E a água, até a geladinha, vem para a mesa aos litros que quiseres, sem gastar um cêntimo. Podes pagar tudo ao preço de um rim, mas ici, podes viver a pão e água sem pagar.
Sim, levo daqui experiências tortas e retas. Novas e renovadas. E, por esta altura, toda uma veterania a compor números à francesa e amizades à gaulesa.
No hotel, além de já não precisar dessa habilitação matemática para enunciar o meu quarto, a senhora que limpa já me deixa seis cápsulas de café "fort" em vez de uma de forte e descafeinado. No pequeno-almoço a senhora que nos atura já topa o meu fim de refeição e avança de copo de papel para mim, para me evitar a vergonha de não me lembrar que se diz "gobelet". E vem de sorriso generoso e cheio, que nisso somos iguais desde o dia um, numa cumplicidade de que vou ter saudades.
Não chego - seria impossível- ao nível de empatia ganha pelo João Miguel Nunes, o mais medalhado olímpico em popularidade da comitiva RTP. Mas descobri que ele dopa a relação com os funcionários: consta que além dos sorrisos francos e simpatia natural, ele brinda os bons dias com concertos "A Capella", canta-lhes ainda antes de beber café quando diz bom dia. É concorrência desleal? É. Mas consta as senhoras que arrumam os quartos já deixam lágrimas de saudades dele, agarradas às toalhas limpas, porque a despedida está já aí.
Ontem, antecipando a dor da partida, o meu próprio regresso ao quarto foi... doce.
Sobre a cama, um saquinho de ladrilhos de chocolat e um bilhete da gerente. Mensagem em português irrepreensível, escrito à mão. Deu-me mais que chocolate, deu-me o seu tempo. Já sei que, como eu recebi aquela medalha de carinho escrito que está na foto, cada um de nós teve direito à sua.
Não faço ideia se o texto é o mesmo para todos, se o brinde é equivalente em doçura. Nem preciso. Mas se o nosso líder em empatia, João Miguel Nunes, para os amigos Jomi, aparecer com diabetes pós-olímpicos, bem feito! Quem o manda ser mais doce?